Em nenhum sistema democrático com um judiciário independente, seria possível explicar o expurgo em andamento na Turquia, com a destituição, afastamento, demissão, expulsão e até prisão de professores, acadêmicos, empresários, policiais, funcionários públicos, juízes, governadores e até jornalistas; e fechamento de hospitais, escolas, creches, universidades, fundações de ajuda humanitária, associações empresariais, jornais, revistas, sites, televisões, rádios.

Por ter sido decretado um "estado de emergência" e suspendida a "convenção europeia de direitos humanos", as pessoas são detidas e instituições fechadas sem abertura de processo legal, sem julgamento e sem direito a defesa. Ao não encontrarem a pessoa procurada (seja empresário, jornalista ou professor), os policiais prendiam a esposa, o irmão e até os pais. Há também relatos de tortura e estupro cometidos contra presos.

“Como uma pessoa que já viveu muitos golpes de Estado [desde a proclamação da República da Turquia, em 1923, já foram quatro], posso recomendar ao povo turco: não seja a favor de qualquer golpe que seja”.

Fethullah Gülen

na entrevista à Folha de São Paulo

19/07/2016

Expurgo pós-golpe na Turquia

Demitidos

150,348

Escolas

1.284

Presos

96.885

Dormitórios fechados

800

Fundações fechadas

560

Hospitais fechados

54

Meios de comunicação fechados

189

Acadêmicos que perderam emprego

6.021

Jornalistas presos

319

Universidades fechadas

15

Associações fechadas

1.125

Juízes, promotores demitidos

4.463

A PERSEGUIÇÃO CONTRA O MOVIMETO HIZMET

Na noite do 15 de julho de 2016 aconteceu uma tentativa de golpe na Turquia, nas cidades de Istambul e Ancara. Apesar de não parecer ser um golpe militar comum, por causa de muitas coisas estranhas, condenamos o golpe e declaramos nossa posição em favor da democracia. Esperamos que os militares envolvidos nessa tentativa de golpe sejam detidos, julgados e condenados conforme a lei. 

No entanto, essa tentativa de golpe foi considerada como uma "bênção" recebida , pelo Presidente Erdogan e pelo Governo Turco, para começar o expurgo generalizado no país. Poucas horas após o golpe, as listas com nomes de milhares de pessoas começaram a ser divulgadas como "organizadores do golpe". Tudo indica que, tanto o golpe estranho quanto o fichamento de milhares de pessoas, há muito tempo tinham sido planejados e preparados.

Desde que investigações de corrupção vieram a público, em 17 e 25 de dezembro de 2013, Erdogan culpa o Movimento Hizmet por todos os problemas na Turquia. No caso desse golpe não foi diferente, fizeram declarações irresponsáveis e difamatórias acusando o Hizmet por essa tentativa de golpe.  Começando com Fethullah Gülen, o inspirador do Hizmet, todos os membros e simpatizantes do Movimento condenaram o golpe e declararam defender democracia, como há décadas o fazem.

A República da Turquia foi fundada sobre a base da herança do Império Otomano. A nova República começou com um sistema unipartidário em que o secularismo, o laicismo e a modernização foram a política de enculturação dos governos opressivos. A transição para o sistema multipartidário ocorreu somente em 1946, como resultado da aproximação à OTAN e à aliança do Ocidente para impedir a expansionismo soviético. Essa e muitas outras causas impediram, por muitos anos, a institucionalização da democracia plena na Turquia. Os golpes realizados em 1960, 1971, 1980 e 1997 foram demonstrações da tutela militar sobre a democracia turca.


O Governo do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), fundado com a liderança do antigo prefeito de Istambul, Recep Tayyip Erdogan, surgiu como uma esperança para a democracia turca. Entre 2002 e 2010, o período considerado como “a era de ouro da Turquia” por cientistas políticos, as leis de conformidade com a União Europeia (EU), as fortes medidas tomadas no processo de democratização, os movimentos econômicos bem-sucedidos, os trabalhos de integração com o sistema internacional, assim como o enfraquecimento da tutela militar, fizeram com que a Turquia aparecesse como uma estrela em ascensão na sua região.

Neste processo de democratização e integração com os valores universais, o Movimento Hizmet tomou uma atitude positiva e construtiva: organizou e organiza, em todo o mundo, atividades de ajuda internacional, serviços educacionais, na qual reúne pessoas de diferentes religiões e culturas e, deste modo, ficou conhecida como uma das organizações civis mais pacíficas do mundo. A clara interrupção da atitude positiva do Movimento Hizmet pelo governo surgiu quando a tendência autoritária de Erdogan começou a ser evidente e quando tentou tomar o controle de outros tomadores de decisão, violando o princípio da “separação dos poderes”, uma das caraterísticas essenciais da democracia. A política externa regional muito agressiva de Erdogan durante a “Primavera Árabe” foi um dos fatores de grande preocupação para o Movimento Hizmet.
 

Em 2012, A Fundação de Jornalistas e Escritores, uma instituição proeminente do Movimento Hizmet, anunciou através de uma declaração escrita ao público, que o Hizmet não apoia nem apoiaria nenhum partido político, mantendo-se assim com a mesma distância em relação a todos os partidos. Em contrapartida, Erdogan ameaçou confiscar os cursos pré-vestibulares ou “dersanes” - que ocupa um lugar muito importante no sistema educacional turco - e iniciou o processo de fechamento de todos os cursinhos, da iniciativa privada, embora isso seja contra a constituição. 
Contudo, em 17 de Dezembro em 2013, a maior investigação de corrupção da história da Turquia abalou o governo do Erdogan. As investigações decifraram uma cadeia de propinas e desvio de dinheiro de bilhões de dólares através de um comércio ilegal de “ouro por petróleo”, entre Turquia e Irã. Isso acontecia em um momento que a ONU impunha sanções contra o Irã. A Turquia excedeu as sanções violando as normas bancárias internacionais. Estiveram envolvidos quatro ministros do Governo de Erdogan e o ator principal das investigações, um jovem empresário iraniano, Reza Zarrab, juntamente aos filhos de três ministros, que tiveram que renunciar. A conversa telefônica de Erdogan com seu filho Bilal Erdogan mostrou que ele está exatamente no centro de esquema de subornos e desvios.

Porém, Erdogan reagiu destituindo os promotores e policiais que conduziam as investigações. Em seguida, os presos das operações, incluindo Reza Zarrab, foram libertados. Em março de 2016, Reza Zarrab foi preso nos EUA, sob acusação de lavagem de dinheiro e quebra das sanções contra o Irã. Ele está sendo julgado com possível condenação a mais de 75 anos. Após as revelações, Erdogan alegou que essas investigações, da qual ele é peça-chave, foram organizadas pelo Movimento Hizmet e lançou uma “caça às bruxas”, acusando o Hizmet de formar um “Estado Paralelo”. Como o resultado dessa “caça às bruxas”, mais de 2.000 pessoas foram detidas, sem processo judicial ou julgamento algum, violando o direito internacional, direitos humanos universais e liberdades individuais. Mais de 600 pessoas foram presas, todas sem nenhum processo judicial e/ou julgamento. Um dos três maiores bancos do país, o Bank Asya; uma das maiores editoras, Kaynak Holding; o maior jornal, Zaman; e o terceiro maior grupo de mídia, Ipek, dono de dois jornais e de dois canais de TV, foram confiscados e suas contas bancárias apreendidas. A transmissão dos canais do Grupo Samanyolu TV foi bloqueada. Os dois jornais tomados pelo governo à força pela polícia, o Zaman e o Bugun, foram fechados alguns meses depois da tomada.
 

Dois generais e um coronel, que não quiseram ser cúmplices nos crimes internacionais de Erdogan, foram presos sob a acusação de fazer parte do “Estado Paralelo”, decorrente das investigações sobre caminhões cheios de munição enviados para grupos radicais na Síria pelo MIT (Agência de Inteligência da Turquia). Os promotores, juízes e policiais que iniciaram investigações sobre esses caminhões ainda estão presos. 


O diretor executivo do Jornal Cumhuriyet, Ugur Dundar, e o chefe da redação, Erdem Gul, publicaram notícias sobre esses caminhões e foram detidos sob a acusação de serem membros do “Estado Paralelo”. Foram presos por mais de 3 meses e condenados a mais 5 anos e 10 meses de prisão. Atualmente estão em liberdade. 

Os membros do Tribunal Constitucional que decidiram pelo julgamento desses jornalistas em liberdade, também foram acusados de fazer parte do “Estado Paralelo”.  

O diretor executivo da Samanyolu TV, Hidayet Karaca, foi preso por um trecho de roteiro de um seriado de TV exibido em 2005. Os juízes que libertaram ele também foram presos.

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